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Do Voto da Desesperança ao Voto Envergonhado
A origem do antipetismo não vem tão somente dos escândalos de corrupção que vieram à tona durante os governos Lula, mas, principalmente, do ressentimento que acompanhou as promessas quebradas do sistema neoliberal, tão defendido por uma parcela gigantesca da classe média.
Como já explanei diversas vezes por aí, o primeiro governo Lula foi uma administração de pôr os “pingos nos is”: conhecer a engrenagem pública e, pelas beiradas, tentar beber a sopa do Mercado sem espantar a raposa. O segundo governo Lula foi marcado por “anos dourados” após mais de 50 anos de atraso: distribuição de renda, redução da desigualdade social, um Estado de bem-estar social tentando respirar sem aparelhos e uma pitada de sorte que só o nordestino tem.
Aqui começa a problemática. O miserável saiu da miséria, o pobre saiu da pobreza, o rico continuou rico e até um pouco mais rico, mas parcelas da classe média, embora transitassem entre as faixas média e média-alta, continuaram na faixa intermediária. Essa parcela da classe média observou os de baixo chegarem aos seus joelhos, mas ainda não conseguiu tocar os pés de quem estava no pico da pirâmide social.
Isso gerou o desconforto de parte daqueles que costuram grande parte da ideologia de um país e que, futuramente, desembocaria num profundo ressentimento. Não há sentimento que defina melhor essa parcela da classe média do que o ressentimento pelo próprio fracasso “individual”. Todos venceram — os de baixo e os de cima — na largada de uma corrida em que, pelo exposto, essa classe já partia com certas “vantagens” e, ainda assim, teve de se contentar com a medalha de prata, enquanto os do submundo conquistaram o bronze e a elite, para variar, ficou com o ouro.
É claro que essa corrida não representa literalmente os resultados econômicos de cada grupo social, tampouco significa que todos tenham avançado na mesma proporção. A metáfora diz respeito, sobretudo, à percepção de status de uma parcela da classe média: a sensação de que, apesar de suas vantagens históricas e de seus esforços individuais, ela não conseguiu se aproximar da elite na mesma medida em que os mais pobres se aproximaram de suas próprias condições de consumo e de acesso a oportunidades. O incômodo, portanto, não estaria necessariamente em perder o que já tinha, mas em ver outros conquistarem aquilo que, durante muito tempo, pareceu ser um privilégio seu.
O ressentimento ganhou as cores verde e amarela, o logo da CBF e um X sobre o número 13. Seus integrantes precisavam de um líder para chamar de seu, mas não poderia ser, obviamente, nem o dos descamisados nem o dos arrumadinhos do andar de cima.
Bolsonaro surge nesse contexto como aquele vírus que escapa do laboratório e infecta o coração de quem estava sem vacina intelectual. A doença do ódio e das bravatas antissistema se alastra como uma epidemia à brasileira ao encontrar terreno fértil no “tô nem aí”.
Não se trata, evidentemente, de reduzir todo antipetismo ao ressentimento de classe, nem de atribuir a todo eleitor bolsonarista o mesmo conjunto de motivações. Há quem vote movido por convicções econômicas, rejeição à corrupção, desconfiança das instituições ou insatisfação com os partidos tradicionais. Há também quem encontre no discurso conservador uma identificação moral e religiosa, especialmente quando pautas de gênero, sexualidade e família são apresentadas como ameaças aos valores que essas pessoas consideram fundamentais. Nesse terreno, o medo de mudanças nos costumes pode se somar à rejeição política e transformar adversários em inimigos a serem combatidos. A questão é compreender como essas motivações se articulam e, em determinados contextos, alimentam o ressentimento e a disposição de aceitar qualquer alternativa que prometa derrotar o PT.
Para além de todo o cenário político que envolveu a prisão de Lula da Silva, um dos personagens mais vitoriosos desse sistema, Bolsonaro emerge do esgoto do mais baixo clero. Como uma espécie de Capitão Planeta da sujeira, começa a combater as instituições de seu próprio país, atacando tudo aquilo que o contrarie.
E aqui cabe uma hipótese, não uma afirmação sobre a totalidade do eleitorado: se perguntássemos a um eleitor de Jair Bolsonaro se ele acreditava que o país melhoraria com a eleição do “capitão”, talvez encontrássemos uma resposta desconcertante: “NÃO”. Nasceria, nessa situação, o voto da desesperança, do descrédito, do “eu sei que não vai melhorar”, mas o importante é que não vença o comunismo e que o pobre continue lá embaixo.
Não importaria se a distância em relação aos ricos aumentasse ainda mais, desde que houvesse alguém sobre quem pisar com seus tênis parcelados em 12 vezes no cartão. Nesse raciocínio, derrotar o adversário passaria a ser mais importante do que melhorar a própria vida. O voto deixaria de representar uma aposta em dias melhores para se transformar numa aposta na derrota de quem se considera pior.
Foi exatamente essa a contradição que procurei evidenciar: enquanto os mais ricos puderam ampliar suas vantagens em determinados contextos, parcelas da classe média se viram frustradas com suas próprias expectativas, e os mais pobres enfrentaram condições de sobrevivência que chegaram a ser simbolizadas pela fila dos ossos.
A memória é fraca para lembrar das coisas boas, mas quem apanha nunca esquece. Será? Talvez alguns tenham esquecido justamente porque não se sentiram tão atingidos durante os governos do PT, mas experimentaram de maneira mais dura os efeitos do governo bolsonarista. A memória política, contudo, não funciona de maneira uniforme: cada grupo seleciona acontecimentos, interpreta resultados e atribui responsabilidades de acordo com suas experiências, seus interesses e suas convicções.
Agora, eles estão novamente às portas, com suas bravatas antissistema, caçando o coração amargurado daqueles que não enriqueceram, apesar dos privilégios de que dispõem em relação à maior parcela da população brasileira.
Enquanto isso, o governo Lula 3 tenta, mais uma vez, arrumar a casa sob o lema “União e Reconstrução”, preparando o terreno para reconstruir o país e colher os frutos de uma administração que, na minha avaliação, busca avançar dentro das possibilidades e contradições de um sistema capitalista liberal. Não se trata de ignorar os limites, as concessões ou os compromissos assumidos com os setores econômicos dominantes, mas de reconhecer a tentativa de conciliar políticas sociais, crescimento econômico e governabilidade num cenário de restrições fiscais e disputas políticas. É uma tentativa hercúlea de mitigar ao máximo a dor de dente provocada pelo neoliberalismo financeirizado.
O que se pode observar nesse palco é a possibilidade de um voto posterior ao voto desesperançado ou ressentido: o voto envergonhado. Trata-se de uma hipótese interpretativa do filósofo Paulo Ghiraldelli que merece ser investigada. A ideia é que, depois de votar movido pelo descrédito ou pelo ressentimento, parte do eleitorado possa experimentar constrangimento ao assumir publicamente sua escolha, sobretudo quando o candidato passa a carregar um conjunto de controvérsias, acusações e comportamentos socialmente condenados por determinados segmentos da sociedade.
A avalanche da direita, sobretudo a do PL, torna pertinente investigar esse possível constrangimento. O chamado voto útil entra nessa equação, mas não necessariamente da maneira convencional. Aqui, ele pode funcionar também como um subterfúgio: em vez de assumir abertamente o voto em Flávio Bolsonaro, o eleitor se refugia no discurso de que é preciso derrotar o PT a qualquer custo. Assim, o voto deixa de ser apresentado como uma escolha pelo candidato e passa a ser justificado como uma escolha contra o adversário. Sob essa lógica, até mesmo eleitores que poderiam optar por outros candidatos da direita acabariam concentrando seus votos naquele que consideram mais capaz de impedir a vitória petista. O argumento do voto útil, portanto, pode servir tanto à estratégia eleitoral quanto a uma tentativa de evitar o constrangimento de declarar o próprio voto.
É nesse ponto que a hipótese do voto envergonhado ganha contornos mais interessantes: não necessariamente porque todos escondam o voto, mas porque alguns podem preferir disfarçar, relativizar ou silenciar sobre sua escolha, recorrendo ao discurso do voto útil como justificativa. Não há coragem para assumir o voto num pus como o primogênito do 00. Aqui, excluo os “homens-bomba” da seita religiosa Universal do Reino da Família, cuja militância política mais ostensiva constitui outro fenômeno a ser compreendido.
O pouco que lhes resta de humanidade parece bloquear suas cordas vocais e impedir que seus corpos se manifestem explicitamente a favor de um personagem cuja trajetória é frequentemente associada, no debate público e na cobertura da imprensa, a denúncias, investigações e controvérsias: das suspeitas envolvendo rachadinhas e das notícias sobre a aquisição de imóveis com dinheiro vivo às discussões sobre patrimônio, comportamentos privados e declarações públicas. Soma-se a isso a mansão de R$ 6 milhões, a lojinha de chocolates, o filme do Cavalo Negro, as referências a orgias, o episódio do cagalhão, a defesa de um assassino de criança e as controvérsias envolvendo seu vice, alvo de suspeitas de estupro de vulnerável. São episódios de natureza e gravidade distintas, divulgados ou discutidos publicamente, cuja existência, comprovação e situação jurídica precisam ser consideradas caso a caso.
Diante de tudo isso, na interpretação que sustento, o cafuné que Lula da Silva fez nos menos favorecidos, em contraste com o sutil aperto de mãos oferecido à classe mais ambiciosa do país, teria provocado, em determinados setores, uma mágoa maior do que ouvir um “fique de joelhos, de frente para a parede, e repense seus atos”.
Afinal, se é para ficar com a prata e deixar aqueles lá com o bronze, é preferível que nem sequer exista tabuleiro. Se tudo der errado, ainda lhes restará a caixa do brinquedo.
E aí fica a pergunta: será que até a caixa se salvará?

Max Moraes, 11 de outubro de 2026
Max Moraes
Enviado por Max Moraes em 11/10/2026
Alterado em 11/10/2026
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